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Meu Coração, Meu Poema
Silvia Ferreira


04/01/2004 12:59
MEU CORAÇÃO, MEU POEMA

Havia chegado o grande dia. No posto de saúde, entregaram-me o envelope. Abri. Positivo. Estava grávida! A intensa ansiedade transformou-se em alegria. Comecei, imediatamente, a pensar como poderia dar ao rebento um futuro digno.
Tinha certeza de uma coisa: educação era essencial. Queria estimulá-lo desde cedo, matriculando-o numa boa escola e abrindo uma poupança universitária.
Bem, eu teria que trabalhar muito, era verdade. Mas, e o emprego? Seria mais difícil do que eu pensava. Com o salário de professor, meu esposo garantia apenas as mais básicas das necessidades, e eu era uma poetisa, desvalorizada como a cultura útil no Brasil.
Pensei tudo isso e fui para casa. Comecei a escrever como sempre faço diante de um conflito interior ou de uma conta a pagar. Quando cheguei, reparei num quadro de pintura abstrata que estava na sala como nunca tinha feito e percebi que aquilo podia dizer muita coisa:

“Uma abstração e formas de emoção,
tudo irreal, em cores do carnaval.
Será o Brasil representado ou um país idealizado?
Meu filho nasce aqui. Onde?”

“É isso”, pensei. Se nós fugíssemos, ao menos saberíamos nos localizar. Então, veio uma vontade incontrolável de voar para bem longe, atravessar fronteiras e oceanos...
Mas não podia agir por impulso: teria que decidir pelo país ideal. Procurei uma enciclopédia e comecei a folhear, aleatoriamente.
Tudo o que li me deprimiu. Sim, eu sabia que o mundo não era nenhum mar de rosas, mas tantas coisas ruins reunidas em algumas folhas chocaram-me profundamente. Continuei escrevendo:


“O rei e países impedidos,
culpa dos Estados Unidos.
Já em Cuba, Coréia, China
o capitalismo se abomina.
Mas será que essa política dita impura
é pior que a ditadura?
Será que Oriente Médio tem remédio?
E no continente africano,
nascer será para sempre um engano?
Orgulhar-me disso? Jamais!
Prefiro admirar os postais.”

No Brasil, ainda costumava ver coisas boas: um país sem guerras, apesar das balas perdidas; sem empregos, apesar das lutas que dignificam o homem; com miséria, apesar dos maravilhosos e constantes trabalhos voluntários; com tristezas, apesar do reconhecimento internacional de intensa alegria popular.
Foi então que percebi o quanto estava sendo patética. O Brasil era eu mesma. Se ele estava ruim para mim, era porque não tinha nenhum poder transformador no meu espaço de convivência. Era apenas mais um entre muitos brasileiros inertes e ranzinzas.
Eu acreditava em Deus, sabia que ele tinha criado o universo e os homens, e muitas vezes questionei o porquê de tudo ser tão corrompido. Descobri, naquele momento, que Deus nos fez humanos, passíveis de erro e construtores desse mundo, que é perfeito até atuarmos nele. EU DECIDI LUTAR PARA NÃO MAIS ERRAR. O meu Brasil, que ficava dentro do meu coração, seria o melhor possível dali em diante.


“Coração que bate,
bombeando minha vontade
E a transformando em realidade.
Coração que bate,
fazendo da cultura
a verdadeira ruptura.
Coração que bate,
e oxigena a visão
das belezas naturais
perto das guerras mundiais.
Mistério profundo,
celeiro do mundo,
Brasil!
Você não é meu problema,
é meu coração, meu poema!”


Silvia Ferreira | comentários(1)

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